quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

A MUDANÇA


A mudança nasce clandestina,
Cresce marginal,
E prepara suas armas
nos fundos dos quintais
da periferia.

Não faz alarde,
Até ferir a realidade
Com uma pedra de novidade.

Depois disso,
O caos toma a cidade,
Para o desespero das autoridades
E expectativa dos oprimidos
Que sonham com outro tipo de ordem,
com um amanhã que reinvente o passado,
e transforme a vida.

MODELO DE CIDADÃO


Esperam que eu seja produtivo,
alegre e comunicativo,
alguém que ande dentro da linha,
temente a deus
e sempre disposto fazer o bem,
Seja lá que absurdo isso signifique.

Querem fazer de mim um clichê ambulante,
um arremedo de gente,
um fulano conformado,
ou, simplesmente, um hipócrita.

O que importa é manter as aparências,
fazer de conta que tudo segue a contento,
fingir que a sociedade funciona
e que todas as autoridades são legitimas
e dignas de algum respeito.


segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

A DECADÊNCIA DO ESPANTO





Naturalizamos o ódio, a violência, a guerra, a miséria  e a morte.

Nos habituamos ao patológico como corriqueiro roteiro do nosso tempo vivido. 

O anormal e o intolerável tornaram-se  povoações auto sustentáveis em nossa paisagem domestica, fizeram morada no cotidiano, no horizonte e no céu,  sem despertar grandes protestos.

Não sei o que ainda resta dos estereótipos de humanidade, das ilusões da História. Mas eles não irão nos salvar do  conformismo da auto consciência contemporânea. Acho mesmo que estamos condenados, comprometidos, como seres vivos. Afinal, perdemos a capacidade de  de nos espantar, de ter medo de nós mesmos e dos nossos atos coletivos.


REVOLUÇÃO NIILISTA






Conservadores,
lunáticos e conformados,
fazem a festa do século.

Tudo agora é antigo.
Principalmente o futuro
que nos escorre entre os dedos.

Deu em desastre o progresso.
Mas ninguém se espanta.
Afinal, somos todos cúmplices,
Não importa o lado,
do fiasco das Luzes. 

Mesmo os mais progressistas
rezam a opressão de qualquer tradição
ou vanguarda iluminada.

Ninguém escapa ao arcaísmo.

Resta-nos, portanto, somente
A alternativa estrangeira do intempestivo,
a violência do niilismo,
o perfume da destruição,
o êxtase do desconhecido. 

OBJETIVIDADE

Estamos presos a uma sociedade estranha que desde cedo nos ensina a querer o que não desejamos, a sobreviver como prisioneiros. Chamam isso de objetividade.

É, definitivamente, uma realidade muito estranha, onde normalizados o intolerável na vida cotidiana.

sábado, 11 de janeiro de 2020

REVOLTE-SE!!!

Quero saber quando você  engasga, cospe e vomita, toda informação  que você  recebe. Quero estar onde você se revolta, onde você  se perde.

Quero saber o futuro da sua indignação,  da sua loucura e vontade de liberdade anti estatal.

O CONTROLE É VOCÊ

Seja um bom trabalhador,
Um bom pagador,
Um escravo do Estado e do Mercado.

Compre sua felicidade no cartão  de crédito.
Acredite, reze,
Não queira ser livre.

Estude, repita o que é  permitido
Como pensamento autêntico. 
O controle é  você 

INFÂNCIA PERDIDA


Uma criança carrega outra
Na ausência de pai e da mãe. 
Sua infância está morta
E sua realidade é quase adulta. 

Seu mundo é  mudo,
Seu país  é  a tristeza.
Nada lhe diz um futuro,
Para ela  o presente quase não existe ...

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

O ESPECTRO DA CATÁSTROFE



É um fato elementar que a intuição da catástrofe tornou-se um traço fundamental da cultura contemporânea. Nosso imaginário social é hoje assombrado pelo espectro da iminência de um desastre ambiental, econômico, politico, ou, simplesmente, na confluência de todas estas facetas, pela ameaça de um colapso civilizacional.

Em todos os campos das atividades humanas nos confrontamos com um sentimento de impasse e de crise que constitui o pano de fundo permanente da circulação de notícias e informações. Lidamos com isso desde a segunda metade do século XX, quando,  definitivamente, o impactante trauma de duas grandes guerras, dissolveu qualquer otimismo pós iluminista no progresso da humanidade e da tecnologia. Desde então nos tornamos conscientes de que a vida esta sempre em risco, sugeita a um equilíbrio frágil de forças humanas e naturais.
Sabemos que nossas instituições politicas e tecnológicas não garantem um futuro melhor para humanidade. Talvez, até mesmo o impeçam. A relatividade e reversibilidade de todos os avanços materiais conquistados pelas ultimas gerações parece ser não apenas um risco, mas uma tendência.

Diante disso, o que mais surpreende é nossa capacidade para naturalizar o medo e o pessimismo. Somos capazes de conviver com as piores notícias, pois, no fundo, fingimos que a catástrofe que se desenha no horizonte é reversível ou, quem sabe, até mesmo exagerada. 

Se o fim do mundo esta na ordem do dia, ele não será hoje.Tal raciocineo tosco, justifica o conformismo e a indiferença de muitos. e nos torna cúmplices da catástrofe que, mesmo quando  nos parece iminente, permanece suspensa em nossa imaginação. 

Somos incapazes de gerir os impasses de nossa época e sucumbimos a inercia de um capitalismo decadente. No fundo,  sabemos que nosso grande problema é justamente aquilo que nos tornamos. 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

O PASSADO COMO HORIZONTE

O passado segue na vanguarda. 
No horizonte desponta a guerra,
A crise econômica e política,
A tragédia coletiva tem cores vivas
Em nossa sempre urgente falta de perspectivas.


Como de costume,
A morte define o futuro,
Enquanto louvamos os progressos
De nossa decadente civilização. 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

TEMPO PERDIDO

Faz muito tempo
Que estou aqui sentado
Vendo tudo mudando
Esperando a chegada 
De um bom futuro.
Mas ele parece cada vez mais distante
Enquanto me sinto cada vez mais ausente de tudo,
Dentro da consciência  da vertigem
Que me causa o passar dos anos,
Na agonia dos dias.